No oeste do Pará, as regiões do Baixo Amazonas e do Tapajós têm condições críticas de agravos por doenças crônicas, fragilidades na saúde bucal e desafios na saúde materno-infantil, incluindo questões de insegurança alimentar.
Para contribuir com o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde na região, a Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e o Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (ISCO/UFOPA) se unem no projeto Tecendo linhas do cuidado integral à saúde na Amazônia.
A iniciativa prevê apoio no desenvolvimento de soluções em seis cidades da região, sempre levando em conta as particularidades locais.
O projeto é executado pelo Centro de Apoio à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, em parceria com o BNDES e a Umane, tendo o IDIS como gestor da parceria.
Englobando nove estados brasileiros, a Amazônia Legal representa um desafio à parte na saúde pública do país. Com comunidades dispersas em um território extenso e predominantemente rural, o acesso a bens e serviços é dificultado, resultando em assimetrias em relação a outras regiões do Brasil.
Isso fica evidente, por exemplo, na taxa de mortalidade por desnutrição — o dobro da média brasileira —, ou na taxa média de mortalidade materna nos municípios amazônicos — quase o triplo da média nacional. Nas áreas rurais da Amazônia Legal, apenas 8% da população tem abastecimento adequado de água e 3% têm acesso a sistema de esgoto.
As condições desfavoráveis são agravadas por carências de estratégias, inovações e investimentos na oferta de serviços de saúde — especialmente nas áreas distantes de núcleos urbanos, como é o caso das comunidades ribeirinhas.
A Amazônia Legal também é marcada por conflitos ambientais e, é claro, pelas alterações climáticas que intensificam os problemas de saúde das populações locais. Períodos de seca cada vez mais intensos e duradouros deslocam agrupamentos, alterando seus hábitos de vida e dificultando a manutenção de um cotidiano saudável. Queimadas e desmatamento reduzem a oferta de alimentos in natura, favorecendo o consumo de opções processadas e ultraprocessadas.
Nesse contexto, é preciso que os serviços de saúde sejam mais resilientes e eficientes no manejo das questões de saúde que afetam as populações da Amazônia Legal e nas ações de promoção da saúde. Por ser porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) deve ser abrangente, de base territorial, comunitária e integrada à rede de atenção à saúde como um todo.
O projeto Tecendo linhas do cuidado integral à saúde na Amazônia — ou Tecendo, como carinhosamente o chamamos — contribui para o fortalecimento da APS como coordenadora do cuidado e organizadora da rede de atenção à saúde em uma região específica da Amazônia Legal — a do Baixo Amazonas e do Tapajós.
A atuação do projeto se dá em três linhas:
Saúde materno-infantil, da gestação à primeira infância, com foco em segurança alimentar, desnutrição, educação e assistência social;
Saúde bucal, com o uso de ferramentas de teleodontologia para detecção, diagnóstico e tratamentos precoces;
Doenças crônicas não transmissíveis — sobretudo diabetes e hipertensão —, especialmente na estratificação de risco e gestão das condições de saúde de pacientes.
Além do objetivo primário, o projeto tem foco em 12 objetivos secundários. Entre eles, garantir a participação social (por meio do diálogo com conselhos de saúde, organizações sociais e entidades representativas de usuários do SUS, entre outros atores), qualificar a demanda da APS dirigida à atenção especializada (por meio de treinamentos e uso de tecnologias digital e de telessaúde) e desenvolver um aplicativo que facilite ações de saúde de forma colaborativa e interativa.
No Tecendo, tecemos as linhas de cuidado em conjunto. Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) e do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará (Isco/Ufopa) se unem às secretarias de saúde, aos profissionais de saúde e às populações locais do Baixo Amazonas e do Tapajós para uma construção colaborativa.
Na prática, os atores locais são consultados sobre suas percepções e necessidades de saúde nas três linhas de cuidado do projeto, em uma relação de ampla participação social respaldada por técnicas de planejamento participativo.
Ao longo do projeto, serão discutidos os problemas socioeconômicos e ambientais que as populações ribeirinhas e tradicionais têm enfrentado. A ideia é compreender o contexto em que vivem e os itinerários de saúde na busca por atendimento para, então, apresentar um conjunto de alternativas para solucionar as questões identificadas. A visão dos usuários do SUS, profissionais de saúde, gestores, agentes comunitários de saúde e lideranças locais é essencial para o sucesso do projeto. Além disso, as soluções ofertadas devem se basear na capacidade instalada.
O Tecendo também tem foco no desenvolvimento de tecnologias sociais e digitais para a redução de desigualdades e para a identificação e controle dos principais desafios da área da saúde.



O Tecendo integra a Juntos pela Saúde, uma iniciativa do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em parceria com doadores privados. É executado pelo Centro de Apoio à Faculdade de Saúde Pública da USP, em parceria com BNDES e Umane, tendo o Idis como gestor da parceria. A Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e o Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Oeste do Pará são parceiros técnicos.